A escritora gaúcha Sylvia Roesch conta seu livro para crianças brasileiras e portuguesas residentes em Londres

Para mim, o contador de histórias procura encantar e envolver a audiência. No Brasil, conto a história O Mistério da Mesa Arranhada em escolas e em bibliotecas. Além de contar, recito algumas rimas e mostro as ilustrações. Também dialogo com um papagaio fantoche e faço uma ligeira encenação que envolve tapar e destapar o papagaio. Esses truques são suficientes para atrair o interesse e proporcionar o entendimento da trama. De fato, as crianças interrompem a narrativa e antecipam o enredo. Riem das estrepolias do papagaio e fazem uma série de perguntas e comentários no final. Elas se mostram afetivas e querem se aproximar de mim.

Fiquei, então surpresa ao constatar, na primeira vez que contei a história em Londres* (ver observação abaixo) , que os adultos riram mais do que as crianças e elas se portaram de forma bem mais retraída do que no Brasil. Os pais e professores relataram que as crianças gostaram de ver os animais brasileiros ilustrados no livro e de ouvir as rimas. Que o suspense e o mistério são elementos atrativos da história. No entanto, explicaram que seus filhos entendem muito menos português do que parece. Uma mãe disse: “Meu filho de 8 anos só consegue ler livros em português que tenham uma frase por página.” Outra mãe comentou que sua filha de 6 anos lê um pouco de português e escuta música, mas não quer ler em voz alta. Outra, ainda, disse que seu filho lhe pediu para não falar em português com ele na frente de seus amigos.

Contar histórias ajuda o desenvolvimento do vocabulário. Ainda mais se a sessão é acompanhada de um trabalho adicional. Em Londres, percebi a necessidade de enfatizar o sentido das palavras por meio da repetição ou da tradução de vocábulos. Passei a gesticular, usar expressão corporal e modular a voz. Também, introduzi objetos concretos que são parte do cenário na história, como uma campainha e uma ratoeira (de faz-de-conta). Os professores estimularam as crianças a desenhar os personagens, ou a continuar a história, ou a desenvolver novas rimas.

As mães sabem que a família deveria reforçar o estímulo dos clubes e gostariam de ajudar, mas indagam: “como ensinar nosso idioma para as crianças como segunda língua? Existe algum método?” Uma coisa é certa: para desenvolver a leitura e a escrita destas crianças, precisamos urgentemente ter acesso a muitas outras obras em língua portuguesa no exterior.

(www.sylviaroesch.com)

Londres, 16 de março de 2011

OBS:
*Em Londres, contei a história em quatro organizações criadas por famílias brasileiras a fim de incentivar o aprendizado da língua portuguesa e fortalecer a comunidade e a cultura brasileiras no exterior: Clube dos Brasileirinhos, em Golders Green; Escola Católica Meu Pequeno Jesus, em Whitechapel; Brazilian Educational and Cultural Centre (BREACC), em Twickenham; e no clube de português, que é parte das atividades do Light Project International, em Islington. Hoje, essas organizações contam com o apoio da Associação Brasileira de Iniciativas Educacionais do Reino Unido (ABRIR).

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Publicado em 18/03/2011, em Ensino de Português. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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