“Playgroups”: brincadeira e aprendizado

Muitos pais que criam seus filhos no exterior temem que falar o idioma materno apenas em casa seja insuficiente. Vamos tentar enfatizar a importância dos “playgroups” na criação de filhos bilíngues, tanto para o desenvolvimento da linguagem como para a valorização da língua materna.

Vivendo no exterior, é provável que haja pouco ou nenhum suporte ao idioma materno na escola formal. Alguns pais podem sentir-se isolados linguisticamente e até minimizar a importância – e o uso – do idioma materno, preferindo usar o idioma do país em que vivem como tentativa de sentir-se aceitos. A pressão da comunidade é para que o estrangeiro utilize o idioma da região na maioria das situações.

Como já dissemos, é necessário que um idioma seja praticado para que a criança seja eficientemente bilíngue; e numa situação de “isolamento”, o perigo é que a criança perca o domínio do idioma materno à medida em que se torna fluente no idioma da região, com a influência da escola, amigos e meios de comunicação.

Para criar filhos bilíngues, toda oportunidade de encontro com pais e crianças na mesma situação deve ser encorajada, mesmo que isso implique em viajar pequenas distâncias, ou abdicar de parte do pouco tempo livre dos pais. Os playgroups (ou pequenos grupos de mães e bebês, ou a escola formal) oferecem a oportunidade de interação com pessoas de mesmo idioma, ajudando a família a se sentir menos isolada, menos “minoritária”.

Experiência com playgroups comprovada e garantida

Atualmente moro na Suíça, numa região de língua francesa. Saí da Inglaterra quando meu filho tinha 8 meses, e seu mundo passou de “inglês-português” a “francês-português” antes que as primeiras palavras tivessem sido aprendidas.

Assim que cheguei procurei informações sobre grupos de brasileiros com filhos aqui, e formamos um grupo bastante homogêneo de brasileiras (com três estrangeiras no grupo, uma francesa, uma japonesa e uma suíça, todas casadas com brasileiros) com filhos de idade entre 1 e 4 anos. As mães não-brasileiras aproveitam para treinar o português e, durante as reuniões, tentam falar português com os filhos.

Para essas crianças, esta é a grande oportunidade para aprender o idioma paterno. As crianças com mães brasileiras, apesar de falar português com muito mais frequência, frequentam escola ou creche de língua francesa. Para estes, descobrir que podem brincar com outras crianças em português é uma grande descoberta.

Se o idioma das brincadeiras e das conversas é a língua materna da criança, cresce a autoconfiança e a autoestima, a criança deixa de sentir vergonha por ser diferente, por falar diferente; ela finalmente pode interagir com outras crianças no idioma falado em casa. Os pais (em nosso caso, as mães), por sua vez, podem trocar idéias e experiências, encontrar soluções para seus problemas (que são muitas vezes os mesmos), dividir informações, emprestar livros, mas, acima de tudo, podem encorajar uns aos outros.

A importância do contato com a cultura dos pais

Meu filho tem hoje 18 meses, e começa a se aventurar no mundo das palavras. Das 6 palavras que consigo identificar, uma é em francês (oui = sim), certamente aprendida na creche, uma de uso comum em francês e português(tchau-tchau) e uma onomatopéica (au-au). As outras três (“não”, “esse” e “ácu”, que é o jeito dele dizer água) são em português. A matemática é fácil num estágio tão inicial: metade de seu repertório é em português, e acho que frequentar o playgroup colaborou para que o português ainda seja a língua de maior influência em seu vocabulário.

Tão importante quanto a oportunidade de praticar o idioma minoritário é o contato com a cultura do país de origem dos pais. Brincadeiras típicas, cantigas tradicionais, parlendas e contos infantis são apresentados à criança de forma natural, ampliando o horizonte cultural da criança.

Por meio da linguagem, todo um modo de vida é aprendido: formas de relacionamento social; o modo de perceber e organizar experiências; regras e convenções de comportamento; valores morais; ideais; a cultura da tecnologia e da ciência, bem como poesia, música e história.

Ao sentir que não estão isolados e que outras pessoas passam pelos mesmos problemas, os pais ganham confiança para continuar a usar o idioma materno com seus filhos – e os filhos ganham novos amigos, amigos que falam a mesma lingua e dividem a mesma herança cultural.

  • As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro A Parents and teachers Guide to Bilinguism, de Colin Baker.
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Publicado em 20/03/2011, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Maria salomé Coelho Ribeiro

    Achei o artigo muito pertinente. tenho tido muita preocupação com crianças filhos de brasileiros que moram e estudam nos EE.UU., falam a Língua Portuguesa em casa e estão se alfabetizando apenas em Inglês.
    De acordo com opinião de especialistas em economia e sociedade,a tendência desses brasileiros será o retorno ao Brasil a médio prazo, dada ao crescimento da situação econômica do nosso país e a oferta de trabalho aqui.
    Sou pedagoga, especialista em alfabetização, trabalho com com formação de professores há mais de 30 anos, tenho materiais publicados e larga experiência. Estou aposentada e gostaria de participar de algum movimento de alfabetização de Crianças, jovens e adultos que moram fora do país seja atuando diretamente com alfabetizandos, produzindo materiais ou capacitando professores.
    Poderia me oferecer dicas de como começar?

  2. Maria,

    Agradeco seus comentarios. Eh sempre bom saber a opiniao das pessoas que recebem o blogtim.

    Vc jah se cadastrou gratuitamente no portal da ABRIR? Se o fizer, terah acesso a publicacoes que possam lhe interessar.

    Se tiver em Londres, seria um prazer encontrar com vc e discutirmos melhor suas ideias. Se estiver nos EEUU, me avise para que lhe envie contatos de associacoes brasileiras ligadas a educacao de criancas lah.

    Posso lhe dar algumas dicas de como comecar, mas seria util saber em que pais voce estah.

    Abracos.

  3. Elaine Morelock

    Achei este artigo escrito por Maria Lucia não só de muita importância mas também um grito de alerta aos pais que querem educar seus filhos em dois idiomas. Moro nos USA e meus dois filhos nasceram aqui, um de 5 e um de 2. Meu marido é americano mas fala bem o português (um nível intermediário, ou mais). Sempre tivemos consciência e fomos muito disciplinados em enfatizar o português de todas as maneiras imagináveis. Meu esforço, em particular, se deu quando meu filho, aos 3 anos, começou o preschool e começou a “preferir” mais o uso do inglês, o que já esperava acontecer. Foi aí que me empenhei duplamente. Pensei, se com 3 anos, esta identificação já existe, tenho que prover atividades, motivações extras e além para poder competir. Meu objetivo sempre foi criar uma boa e sólida base do idioma português antes de que ele ingressasse ao kindergarten. Li este mesmo livro que Maria Lucia menciona dentre outros e confirmo que é uma imensa fonte de suporte e informação para pais que estão desencorajados ou que não sabem exatamente como navegar este mundo bilingue e, principalmente a manutenção e desenvolvimento do idioma que virá a ser o minoritário (L1). Meu filho de 5 anos, fala, lê e escreve em português a nível ou além de uma criança de 5 anos no Brasil. Tenho muito orgulho de dizer que o esforço colocado nestes primeiros anos de vida da criança, o trabalho de encontrar playdates, materiais na língua portuguesa, entusiasmo para criar brincadeiras ou manter conversas e ir além em português, vale DEMAIS. Estou fazendo o mesmo com o meu menino de 2 anos e sinto que o esforço e insistência fará o mesmo. Seria um prazer compartir o que tem funcionado para mim, dentro da minha experiência e ourvir de outras pessoas que passam ou passaram pela mesma situação. Adoraria poder ganhar idéias novas, renovar o meu repertório e motivação apra continuar na batalha da melhor maneira possível.

  4. Elaine,

    Que bom saber que temos familias seguindo nosso blog dos EEUU 🙂

    Agradeco por vc compartilhar sua experiencia conosco. Eh sempre encorajador saber do sucesso de outras familias em criarem seus filhos bilingues. Parabens pelas suas conquistas! Sei que o investimento eh financeiro, emocional e psicologico 😉

    Vc acha que o fato do seu marido falar portugues ajuda na dinamica das duas linguas com as criancas?

    Vc poderia nos dar exemplos do que faz quando se diz ‘disciplinada’ e do ‘esforco’ que faz? Tenho certeza que serao dicas valiosas para todos nos 😉

    Se tiver interesse em olhar a lista de livros que a ABRIR recomenda, cadastre-se gratuitamente no nosso portal, http://www.abrir.org.uk Seria otimo tambem saber se vc tem outras sugestoes de leitura.

    Abracos,

    Ana

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