Educação e Tecnologia

O Blog-tim ABRIR entrevista o doutorando Antônio Márcio da Silva (Universidade de Bristol), Leitor brasileiro da Birkbeck, Universidade de Londres, sobre o uso de tecnologia no ensino de línguas. Nesta entrevista, Antônio fala do fim da hegemonia do livro didático como principal recurso para o ensino de línguas e explica como a introdução de inovações midiáticas, como a Internet, podem potencializar as experiências linguísticas e culturais dos alunos.

Antônio já atuou nas Universidades de Bristol, Oxford, Kent e Imperial College. Atualmente, faz parte de um projeto do governo brasileiro denominado Leitorado (coordenado pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que tem por objetivo expandir a Língua Portuguesa, com ênfase em estudos brasileiros. Na Birkbeck, além de ensinar a Língua Portuguesa para estrangeiros, Antônio trabalha na área de Estudos Culturais incluindo, por exemplo, Literatura, Cinema e música.

Blog-tim ABRIR: Como você descreveria o perfil dos alunos interessados em aprender Língua Portuguesa?

Antônio: Isso é bem interessante. Eu tenho acompanhado alunos da Birkbeck, de outras instituições de ensino e de outros contextos de ensino da Língua Portuguesa como Língua Estrangeira (LE) no Reino Unido,desde 2004. Desde 2007, tenho feito juntamente com a professora Dr. Lúcia Rottava, hoje professora da UFRGS, pesquisas sobre o tema, e publicado artigos a respeito do perfil desses alunos e do ensino de Português LE para diferentes grupos linguísticos. Por exemplo, quando ela ainda estava aqui, escrevemos um artigo sobre as crenças dos alunos de Português LE. Pelos dados que analisamos no artigo, percebemos que, no contexto de Londres, a maioria das pessoas que querem aprender Português já estudou, pelo menos, uma outra Língua Estrangeira, sendo a Língua Portuguesa a segunda Língua Estrangeira que aprendem.

No que concerne o perfil dos alunos, este varia bastante, pois eles têm interesses diversos, como pudemos constatar em nossas pesquisas desenvolvidas até então. Além de outros interesses, há um grande número de alunos que se interessam em aprender a Língua por manterem relacionamento com falantes de Português. Hoje, há também a questão econômica do Brasil, o que tem motivado principalmente alunos mais jovens a estudar a Língua para buscar oportunidades de emigrar para o Brasil para trabalhar. Temos também alunos que adoram música brasileira, fazem capoeira, gostam de filmes brasileiros ou adoram o ‘som’ da Língua.

Blog-tim ABRIR: Qual é a sua opinião quanto ao material didático disponível no mercado para Ensino de Língua Portuguesa para estrangeiros?

Antônio: Bem, essa é uma questão bem complexa. Primeiramente, quando se fala em material didático, a primeira palavra que vem à mente é “livro”. Se estivermos falando de livros, a minha percepção, puramente pessoal, já que essa não é uma área que tenho explorado muito, é a seguinte: livro nenhum agrada a todos, isso é fato. Eu sempre fui um professor que adota o livro porque o aluno vê o livro como parte de sua crença de como aprender uma Língua, eles estão acostumados a ter o livro. Todavia, não sigo nenhum livro página a página. Eu trabalho com a idéia das habilidades que o aluno deve desenvolver (na Birkbeck, os programas de curso são baseadas no portfólio comum para o Ensino de Língua na Europa). Lógico que, quando você tem um livro, você busca relacionar os conteúdos às habilidades que se pretende trabalhar. Eu diria que o uso do livro didático pode ser oportuno para alguns momentos, mas não sou escravo dele.

Pode-se dizer, ainda, que há uma escassez e uma defasagem muito grande de livros de ensino de Português brasileiro como Língua Estrangeira disponíveis no mercado. Muitos desses livros são muito genéricos e não refletem as habilidades que se espera do aprendiz em determinado nível. Outro problema é que esses livros, recorrentemente, não se relacionam à realidade do ensino de Português em contextos como o de Londres. Além disso, o preço desse material costuma ser muito caro. Mas eu, particularmente, não posso reclamar. Como já disse, há milhares de outros recursos além de livros didáticos. Hoje, podemos criar uma variedade enorme de materiais próprios. Com as mudanças na tecnologia, o ensino de Línguas está, sem dúvida, muito mais atraente.

Blog-tim ABRIR: Como você acredita que a tecnologia pode ajudar no Ensino de Línguas?

Antônio: Bem, sem ainda mencionar a Internet, você pode dar uma aula usando o Power Point e um projetor, ao invés de escrever no quadro. Todas as anotações feitas durante a aula podem ser salvas como documento e disponibilizadas para os alunos na plataforma virtual da universidade. Isso é muito bom para os alunos que perdem aula porque estão trabalhando, por exemplo, o que é muito comum em nosso contexto, poderem recuperar as discussões.
Com relação à Internet, temos muitas outras possibilidades. Você tem como dar aula para os alunos na casa deles através de programas específicos para o ensino virtual, ou programas populares como skype e hotmail. Ou ainda, disponibilizar, on-line, as atividades que os alunos podem fazer durante o horário disponível extra-classe.

Pra mim, o espaço da tecnologia é muito importante no ensino de Línguas justamente nesse período entre uma aula e outra. No contexto no qual trabalho, o aluno tem aulas de Português uma vez por semana e, se ele não tiver contato com falantes da Língua, ele só voltará a usá-la novamente na sala de aula na semana seguinte. No passado, eles faziam normalmente exercícios escritos em casa. Hoje, eu uso vários websites para eles desenvolverem diferentes habilidades linguísticas em casa, por exemplo, o Vocaroo – usado para atividades de produção oral e o YouTube, o qual tem uma infinidade de coisas interessantes, não somente para os cursos de Língua, como também para os cursos específicos sobre representações culturais. Para os alunos mais avançados, temos livros on-line gratuitos. Por exemplo, temos a biblioteca on-line do Domínio Público no Brasil, que inclusive está correndo o risco de fechar porque não é acessada: um acervo excelente de literatura brasileira, portuguesa e universal, música, etc. Temos o website do Terra, e vários outros que têm muitas obras literárias disponíveis gratuitamente. Tem também o website do Jornal Nacional, da rede Globo, a Rádio Agência NP, onde há gravações com transcrições de textos, e muitos outros. Esses recursos são fundamentais para que os alunos estejam em contato com a Língua a maior quantidade de tempo possível. Lógico que há alunos que trabalham e não têm tempo para fazer muitas atividades extras, e claro que o professor tem que fazer adaptações de acordo com o nível e disponibilidade de tempo do aluno. Porém, em minha opinião, nós temos que propiciar aos alunos essas oportunidades.

Blog-tim ABRIR: Já que mencionou a questão do tempo dos alunos e dos professores, como você lida com a falta de tempo e também com alunos que eventualmente não sejam adeptos dessas novas tecnologias?

Antônio: Sei que nem tudo são flores. Sempre há aquele aluno que não tem microfone, não tem Internet, alunos que não têm tanta habilidade com a tecnologia. Alguns alunos vão detestar “essas coisinhas engraçadinhas” a princípio e adorariam que você chegasse na sala e ensinasse gramática do primeiro ao último minuto de aula. Você não pode culpá-los, porque eles vêm para a sala de aula com muitas crenças, principalmente se já têm experiência de aprendizagem com outras Línguas, e isso pode ser um choque, com certeza. Acredito que o caminho é proporcionar experiências de aprendizagem para que passem a se sentir mais seguros e, então, os resultados são maravilhosos. O mais importante, o ponto chave do uso da tecnologia é a necessidade. Não adianta dizer para o aluno que ele pode usar isso ou aquilo. O aluno tem que ver o porquê de usar certo material, senão ele não vai usar. Não se trata só de disponibilizar, tem-se que levá-los a explorar esses recursos. Por outro lado, hoje, temos alunos que, por falta de tempo, usam as diferentes inovações tecnológicas a seu dispor para o aprendizado da Língua. Por exemplo, o aluno pode ir ao seu trabalho ouvindo gravações de matérias em Português em seu Ipod, etc. Então, o fato é que estamos no século XXI e temos que nos adaptar à realidade.
Em relação aos professores, sei que há muitos que ainda não usam esses recursos e isso é uma pena. É aquela questão: se o professor se dedica ao que faz, ele vai ter que ter tempo, e isso nem sempre é fácil, pois a maioria trabalha em diferentes lugares, o que pode acarretar muito trabalho e preparação.

Blog-tim ABRIR: Quais são os resultados positivos do uso desses recursos na aprendizagem dos alunos, segundo o que você tem observado?

Antônio: Os resultados têm sido muito positivos. Isso é uma avaliação dos próprios alunos porque eles sempre mencionam isso nas avaliações dos cursos. Pra eles, a utilização desses recursos não são somente “diferentes”, mas são utilizados como ambiente de aprendizado. Pra dar um exemplo prático, eu já usei o Facebook no passado pra criar grupos de discussão sobre assuntos que os interessava; fizemos um grupo sobre música e cinema brasileiros. Isso não é uma aula em termos tradicionais, mas definitivamente faz parte do aprendizado da Língua.
Hoje mantemos projetos de intercâmbio Português/Inglês com alunos no Brasil. Desenvolvemos também blogs, wikis, produção de vídeos com webcam, etc. Os alunos têm realizado trabalhos fantásticos. No começo é desafiador, mas depois acabam se interessando, e se soltando, o que é bem importante.

Para entrar em contato com Antônio da Silva, escreva para: antonio.marcio@hotmail.co.uk

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Publicado em 17/06/2011, em Espaço do Professor. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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