Multilinguismo: mundos de experiência

No último artigo, estávamos falando das vantagens do bilinguismo. O assunto é extenso e as vantagens são muitas, motivo por que o tema continua neste mês!

Toda pessoa bilíngue compartilha de dois ou mais mundos de experiência. Cada idioma traz diferentes sistemas de comportamento, ditados, histórias, tradições, modos de encontrar e cumprimentar, rituais de nascimento, casamento e morte, modos de conversar (repare na diferença entre ingleses, árabes e italianos conversando), diferentes literaturas, música, formas de entretenimento, tradições religiosas, modos de entender e interpretar o mundo, idéias e crenças, modos de pensar, de chorar, de amar, comer, brincar. Com dois ou mais idiomas, temos uma experiência cultural mais ampla e – muito possivelmente – maior tolerância cultural e menos racismo.

Em qualquer idioma, existe um caleidoscópio de culturas. Os monolingues podem vivenciar a periferia do caleidoscópio de uma cultura diferente, mas para entranhar-se em todas as cores do caleidoscópio cultural de um idioma, é preciso dominar esse idioma – e essa cultura.

O bilinguismo e a inteligência

Além das vantagens sociais, culturais e econômicas, pesquisas mostram que pessoas bilingues têm mais chances de expandir o “pensar”.

Como assim? Imaginemos que para cada conceito ou objeto, o bilíngue tem ao menos duas palavras diferentes, e isso torna a relação entre a palavra e seu conceito menos arbitrária.

Algumas vezes palavras correspondentes em dois idiomas apresentam diferentes conotações: tomemos como exemplo “cozinha” em português e “cuisine” em francês. Se “cozinha” historicamente já foi uma parte da casa onde trabalhava-se duro, um pouco restrito aos empregados, aos poucos foi se tornando o espaço da casa onde todos se reúnem para uma conversa informal.

A “cuisine” é um espaço para a criatividade, onde a arte se mistura ao prazer de preparar e degustar os alimentos, a “nouvelle cuisine” usa o mesmo termo pra explicar as mudanças no cardápio tradicional.

Em português, precisamos do termo “gastronomia” para alcançar esse mesmo sentido. Nas nossas cozinhas, a comida é mais simples, e enquanto preparamos o almoço nosso convidado lava a louça para não perder mais um tempinho de conversa. E não nos esqueçamos de que, nas festas, os convidados sempre acabam formando dois grupos: o que só frequenta a sala e os que participam dos preparativos, ou da comilança, na intimidade da cozinha.

A sutileza das diferentes associações ligadas a cada universo cultural pode dar ao bilingue a capacidade de pensar com mais fluidez, flexibilidade e criatividade. Ser capaz de transitar entre idiomas pode levar a uma maior consciência da linguagem e mais sensibilidade na comunicação.

Quando encontram pessoas que não falam seu idioma fluentemente, os bilíngues tendem também a ser ouvintes mais pacientes que os monolíngues, seja porque têm mais consciência da dificuldade de se falar outro idioma, ou porque sua flexibilidade de raciocínio os ajuda a suprir a lacuna de vocabulário do falante.

Penso sempre no meu grupo do curso “pré-natal”, na Inglaterra. De sete casais, apenas três eram formados por anglófonos, e destes, apenas um por ingleses, os dois outros casais eram homens ingleses casados com australianas. Os quatro casais restantes eram dois italianos, dois brasileiros (nós), um inglês casado com uma croata, e um francês casado com uma porto-riquenha.

Todos moravam na Inglaterra já há bastante tempo e dominavam o idioma perfeitamente, eu estava por lá há apenas um ano e ainda titubeava em alguns momentos.
Apesar de termos decidido que ninguém falaria outro idioma que não o inglês, sempre achei a comunicação mais fácil com os não-anglófonos, ou com parceiros de não-anglófonos – os nossos bilíngues, ouvintes mais pacientes.

Aqui na Suíça, todos são ao menos bilíngues. Pela variedade de idiomas falados correntemente no país, além da força de trabalho imigrante, não existem muitos problemas de comunicação. Já vi (ouvi) conversas em mesa de restaurante em que um casal falava francês e os outros convivas respondiam em alemão. Cada um falando no idioma em que se sentia mais à vontade, mas nunca deixando de se entender.

Vantagens econômicas

Uma pessoa com dois ou mais idiomas tem uma oferta maior de possíveis empregos no futuro. As barreiras econômicas estão caindo, as relações internacionais estão se tornando mais próximas e as parcerias entre nações são cada vez mais comuns. Os postos de trabalho para pessoas bilíngues só tendem a aumentar, em comércio exterior, turismo, transporte internacional, relações públicas, em bancos, tecnologia, secretariado, marketing, vendas, advocacia, ensino e trabalho assistencial internacional.

Eu venho de um “mundo” de Faculdade de Letras. Os meus amigos falam no mínimo mais um idioma, tenha sido aprendido na escola, em casa ou em curso de idiomas. Hoje, quinze anos após termos nos formado, os poucos que continuam no Brasil são os que seguiram carreira acadêmica e dão aulas em universidades. A maioria se espalhou pelo mundo, foram estudar fora e acabaram morando em outros países. Alguns moraram fora muitos anos e decidiram voltar, devido ao crescimento econômico que o Brasil apresenta no momento. Esse poder de escolha, de poder decidir em que lugar do planeta quer morar, é a meu ver uma das maiores vantagens do bilinguismo.

Com as empresas multinacionais e as fusões entre companhias de países diferentes, as comunidades de países (a Comunidade Européia, por exemplo, ou o Mercosul), as ofertas de emprego são mais favoráveis aos bilígues que aos monolingues. O bilinguismo em si não garante a subsistência de ninguém, mas com a globalização, as chances de um bilingues são sempre mais favoráveis na busca por um emprego.

As diferenças essenciais

A maior diferença entre animais e seres humanos é a linguagem. Aqueles que falam uma língua simbolizam essa diferença essencial entre animais e pessoas. No entanto, aqueles que falam duas ou mais línguas simbolizam a humanidade essencial de construir pontes entre pessoas de diferentes cores, credos, culturas e idiomas.

Construímos essas pontes ao entender que os francófonos são realmente mais cerimoniosos e distantes, ao compreender que o modo de falar dos italianos na maioria das vezes não é uma briga, vemos que os ingleses ironizam não só os outros, mas sobreturdo a si mesmos, e damos a oportunidade aos estrangeiros de perceber que a amizade quase que imediata é uma característica do nosso idioma “português do Brasil”.

  • As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro A Parents and teachers Guide to Bilinguism, de Colin Baker.
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Publicado em 26/06/2011, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Ana Paula Passos Jakubow

    Olá, papais e mamães!

    Procuro famílias com crianças bilíngues (até os 4 anos de idade), sendo um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro, falante nativo de inglês.

    Se estiverem interessados em participar ou se precisarem de mais detalhes sobre a pesquisa, por favor, entrem em contato pelo e-mail anapassos88@hotmail.com.

    Obrigada!

    Ana Paula Passos Jakubów.

    Mestranda em Lingutica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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