Bilinguismo: Mais fácil pra algumas crianças?

Meu filho começou a falar tarde, eu já estava preocupada. Mas a explicação que ouvia de todas as pessoas era que crianças expostas a mais de um idioma falam sempre mais tarde. “Mamãe”, que costuma ser das primeiras palavras que um bebê diz, só chegou aos meus ouvidos quando ele já tinha 1 ano e 8 meses. Mas depois que ele “entendeu o mecanismo”, o desenvolvimento tem sido incrível. Ele passou de um vocabulário de 20 palavras a 200 em questão de um ou dois meses.

Hoje, às vésperas de completar 2 anos, o João repete absolutamente tudo o que ouve (quero dizer que foneticamente não existem mais limitações) e sabe usar as palavras certas na hora certa, inclusive alguns verbos conjugados e algumas tentativas de frase. Ele consegue, de modo rudimentar, pedir o que quer, se fazer entender e contar o que aconteceu.

Mas será que foi a exposição a dois idiomas que o fez falar mais tarde? Minha sobrinha, criada no Brasil, começou a falar aos dois anos apesar de não ter influência alguma de outro idioma.

O filho de uma amiga brasileira, criado aqui na Suíça, era completamente fluente em português com algumas frases em francês aos 20 meses. Hoje, morando em Singapura e com quase 3 anos, o Gabriel é fluente em português e inglês, além da memória do francês.

A verdade é que as crianças se desenvolvem em ritmos diferentes

Da mesma forma que algumas crianças aprendem a engatinhar, a andar ou dizer as primeiras palavras mais cedo que outras, a velocidade de desenvolvimento linguístico varia entre as crianças. Isto é ainda mais verdade quando tratamos do desenvolvimento de dois idiomas.

Estudos mostram que a velocidade do desenvolvimento linguístico não está atrelado ao sucesso escolar ou ao sucesso na vida adulta, por isso, não se inquiete se seu filho começou a falar antes ou depois das outras crianças que você conhece.

O interesse da criança na linguagem é também importante, e em parte separado da habilidade e aptidão para o aprendizado de um idioma. Quando uma criança é encorajada e estimulada a participar das conversas, se os pais ouvem com atenção o que eles dizem, respondem às perguntas da criança de uma forma compreensível para ela, tornam a linguagem divertida por meio de rimas e canções, tudo colabora para o desenvolvimento da linguagem.

Com o devido encorajamento, prática e um ambiente estimulante para o crescimento linguístico, as crianças aprendem dois idiomas de modo relativamente simples, indolor e quase sem esforço. Mas lembre-se que as crianças costumam refletir as atitudes, comportamento e expectativas dos pais, e pais positivos têm mais chances de criar crianças bem sucedidas.

Bilinguismo passivo ou absoluto?

O caminho que leva à competência linguística em mais de um idioma é sempre longo. É importante que os pais não comparem os filhos com as crianças monolíngues que tenham começado a falar cedo, mas com outras crianças bilíngues, na mesma situação. Muitos bilíngues mostram uma competência linguística igual a dos monolingues em um idioma, alguns desenvolvem uma competência considerável na segunda língua, mas é raro que os bilíngues sejam igualmente fluentes, em todas as situações, em dois idiomas.

O fato é que nem todas as crianças bilíngues vão atingir o mesmo grau de competência nos dois idiomas . A família, a comunidade e as circunstâncias educacionais às vezes fazem com que a criança estacione no bilinguismo passivo, isto é, entendem mas não conseguem se comunicar na segunda língua. Esta não é uma parada definitiva, e o idioma pode ser retomado se houver a necessidade ou a oportunidade de um biliguismo ativo, como uma viagem.

O bilinguismo e a maratona

Pensemos numa analogia entre o desenvolvimento da linguagem e a corrida a longa distância. Algumas pessoas completam a prova com velocidade, outras vão num ritmo mais lento mas ainda assim conseguem atingir a linha de chegada. Os pais enquanto espectadores às vezes se inquietam com a lentidão do desenvolvimento linguístico da criança bilíngue, ele esperam uma performance de adultos enquanto a criança está nos estágios iniciais da maratona.

Tornar-se fluente em dois idiomas é para todo mundo um processo mais lento do que aprender a correr. Os pais precisam ter paciência, ao mesmo tempo em que proporcionam à criança o espaço necessário para o desenvolvimento linguístico.

Nunca é demais relembrar que diferentes oportunidades de acesso à língua são fundamentais para o aprendizado, ler livros, ouvir música, contar histórias, conversar com pessoas de fora do núcleo familiar que falem a mesma língua (sim, os “playgroups” desempenham um papel-chave nesta situação).

A maratona pode ser difícil, mas os pais podem – e devem – comemorar cada novo passo dado em direção ao bilinguismo dos filhos. Ao perceber que seu filho compreende tanto o seu idioma quanto o do país onde vive, e que consegue se comunicar em ambos, todo o esforço parece minimizado. E não se espante quando, ao receber o prato na hora do almoço, seu filho diga: “Thank you, mamãe”.

  • As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro A Parents and teachers Guide to Bilinguism, de Colin Baker.
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Publicado em 31/08/2011, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Ola, pessoal!

    Sou casada com frances e tenho duas filhas que falam português, francês e inglês. O pai fala frances com elas, eu falo em portugues, e o ingles elas aprenderam quando viviamos em Londres, vendo a nossa interacao (falo em ingles com meu marido) e assistindo televisao.

    De volta ao Brasil, estamos vivendo uma nova etapa e estamos meio perdidos sobre como reagir. A mais velha está começando a ser alfabetizada e estamos com dúvidas sobre como ajudá-la com o trilinguismo e se devemos, ou não, estimulá-la com a alfabetização das três línguas agora.

    Um exemplo concreto: Ela tem interesse em saber como certas palavras em inglês e francês são escritas. Meu esposo e eu falamos, mas temos medo de confundir a cabecinha dela. As combinações de letras fazem sons diferentes nas diferentes línguas. Outro dia, ela veio com a tarefinha da amiga Jasmine. Letras do nome dela que eu devo embaralhar e minha filha deve colocar na ordem certa. Depois, eu fiquei inventando brincadeiras, tipo, o que a gente pode escrever com NA, NE, NI, NO, NU. Entre outras palavras, ela falou NEZ (que fala ne, em francês). Eu fiz cara de que não tinha entendido e ela disse: “nariz em francês, mamãe….”
    Eu não corrigi, falando que estava faltando um Z, claro. Mas, deu essa dúvida na cabeça.
    Outro exemplo, com RA ela disse que dava para escrever HOUSE. Eu também não corrigi simplesmente por não saber como fazer, nem se devo fazer.

    Qual o conselho que você pode nos dar? O que fazer com criança trilíngue? Devemos aproveitar o embalo da alfabetização de um dos idiomas e já introduzir os outros? Ou, devemos esperar que um idioma esteja solificado e introduzir a escrita do outro idioma bem mais tarde?

    Desde já, agradecemos toda e qualquer dica que vocês possam nos dar!

    Um grande abraço.

  2. Ola, sou professora e me interesei muito pelo seu caso.
    Nao sou especialista em bilinguismo, apesar de ser fluente em 3 idiomas e professora dos mesmos. Aprendi na adolescencia por isso meu caso é diferente.
    Na minha opiniao, suas filhas sao sortudas! Ganharam uma oportunidade ímpar de ter em casa 3 idiomas.
    Eu sugiro que voce continue falando portugues com elas, o pai em frances. Para elas, esta é a imagem que tem de voces. Continue a mesma rotina de sempre, elas saberao distinguir os idiomas e aprenderão simultaneamente todos, aí está a vantagem de ser criança.
    Vejo a importancia do portugues com elas para que voce, mae, possa ajudá-las com tarefas de casa e atividades da escola. O pai pode auxiliar com o ingles e outra lingua estudada.
    O importante é nao criar um problema diante desta situaçao. É um fato positivo e nao negativo. Lidando com naturalidade elas tambem sentirão segurança e quando perceberem estarao fluentes no colégio, com o pai e com a mãe.
    Respeitem a vontade de cada uma delas, pode ser que alguma de suas filhas nao goste de um ou outro idioma, ou mesmo tenha dificuldade. Por isso nao se deve impor nada.

    Espero ter ajudado.

    ANA RITA

  3. Ana Beatriz

    luciana,

    que fofo ver que as meninas estao usando todos os recursos linguisticos que tem a disposicao!
    fico com muito orgulho delas e de vcs. afinal de contas, o esforco do pais para o sucesso das criancas eh grande, eu sei!

    bom, nao hah problema nenhum em alfabetizar as meninas em mais de uma lingua ao mesmo tempo.
    se quiser ter acesso a pesquisas nesta area, procure pelo trabalho de charmian kenner, por exemplo. ela tem livros publicados para professores, entao, a linguagem nao eh muito academica.

    os exemplos que vc deu sao na verdade uma mostra de sua grande habilidade de entender
    todas as linguas que sua filha fala. em outras palavras, prova de conhecimento 😉 a sua atitude tambem eh a correta, nao corrigir. como sua filha estah fazendo referencia a todas as linguas que fala, vc (e o seu marido) devem explorar isso, em vez de reprimir. ela estah claramente desenvolvendo habilidades metalinguisticas (explicacoes para como
    a lingua funciona). isso eh fantastico e soh tem a contribuir para o desenvolvimento cognitivo dela.

    ressalto porem que talvez a professora da escola nao entenda isso e possa vir a exigir que sua filha passe a compartimentalizar
    as diferentes linguas. isso nao eh bom. entao, sugiro que converse com a professora e explique o contexto linguistico da
    sua familia. eh importante que a professora tambem deixe sua filha ´brincar´ com as linguas.

    sendo mais especifica sobre pontos que vc levantou:
    1. As combinações de letras fazem sons diferentes nas diferentes línguas.
    – continue a brincar e explore essas diferencas com sua filha: diferencas de ortografia, de som…
    – oriente, sim, para que as formas sejam corretas nas linguas sendo usadas
    (exemplo NE – NEZ)
    – reforco: nao corrija, explore as diferencas (exemplo de RA – HOUSE)

    ah, outro livro legal eh o de colin baker para professores e pais.

    espero ter ajudado.

    bjs,

    ana

  4. Paolla Grecco

    Adorei a ilustracao das duas criancas.
    As vezes uma imagem realmente vale por mais de mil palavras.

    Eu falo e entendo como quatro linguas, e por muito tempo fui interprete simultanea de Por>Ing>Por. Eu já conheci até pessoas que tem uma certa fluencia em dez linguas.

    Mas na verdade voce so realmente retem fluencia na lingua a qual mais usa. Isso nao quer dizer que voce perde as outras. Por exemplo, se eu voltasse a Italia em 3 meses estaria com o meu Italiano fluente.

    Um fato interessante é que li a alguns anos atras em uma publicacao, da American Translators Associaton, que os estudos com relacao as atividades cerebrais e a lingua ainda eram muito incertos. Naquela edicao eles falavam tambem de um estudo o qual mapeou o cerebro de pessoas bilingues traduzindo verbalmente sentencas. O que o estudo demonstrou fou muito surpreendente pois os cientistas esperavam que os resultados demonstrassem uma ou duas regioes do cerebro como responsaveis pela lingua, e inves disso demonstrou que mais de 10 diferentes regioes do cerebro trabalham juntas para traduzir linguas.

    Outra coisa muito curiosa a qual descobri em minha carreira em linguas foi um dicioario poliglota (6 linguas) escrito for um italiano, BABELE.
    http://www.amazon.co.uk/dizionario-Babele-Dizionario-compatto-italiano-inglese-francese-tedesco-spagnolo-portoghese/dp/8808076873

    Esse dicionario como o autor explica foi compilado nao somente como um livro pratico mas tambem para demonstrar como tantas linguas tem a mesma origem. Pois voce notara que das c35.000 palavras escolhidas pelo autor, a maioria sao quase iguas em todas as 6 linguas.

    P Grecco

  5. Ana Paula Passos Jakubow

    Olá, papais e mamães!

    Procuro famílias com crianças bilíngues (até os 4 anos de idade), sendo um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro, falante nativo de inglês.

    Se estiverem interessados em participar ou se precisarem de mais detalhes sobre a pesquisa, por favor, entrem em contato pelo e-mail anapassos88@hotmail.com.

    Obrigada!

    Ana Paula Passos Jakubów.

    Mestranda em Lingutica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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