Bilinguismo: teoria e tentativas

Eu já contei que meu filho nasceu na Inglaterra e que nos mudamos para a Suíça – um cantão de língua francesa – quando ele tinha apenas 8 meses de idade. Apesar do nosso idioma em casa ser o português, portanto, sempre o mesmo aos ouvidos do bebê, o idioma externo mudou. Também já comentei por aqui que nunca achei justo que o inglês ficasse perdido apenas na certidão de nascimento de meu filho, por isso havia tomado a decisão de incluir o inglês na rotina e na vida do João.

O canal que escolhi para que isso acontecesse foi a televisão, ficou instituído que em casa, nossa televisão só “falaria” inglês. Isso para que houvesse consistência no aprendizado linguístico: português com os pais (e com a família, via telefone e skype, além dos amigos brasileiros por aqui), francês na rua e na escola, inglês com a televisão. Eu só não imaginava que um outro aliado somaria forças à TV, o iPhone.

Hoje o João tem dois anos e 2 meses, adora brincar com os vários aplicativos infantis que baixei no “nosso” iPhone, ri e se diverte com os joguinhos, e passa o tempo que deixarmos assistindo vídeos de músicas infantis ou desenhos no youtube – sem precisar de ajuda para escolher que atividade quer fazer ou que música ouvir. Tudo isso em inglês!

Televisão como aliada?

Quando a exposição a um idioma não é suficiente, o uso da televisão (sejam canais por assinatura ou vídeos-dvds) podem ser um aliado na educação linguística de uma criança. Pais com idiomas minoritários frequentemente compram filmes e programas em seu idioma, para encorajar a criança a crescer e se desenvolver naquela língua. É importante para a criança identificar o idioma dos pais com os grandes meio de comunicação em massa, a que normalmente ela tem acesso apenas no idioma majoritário. A criança não apenas tem acesso ao idioma dos pais de uma forma agradável e atraente, mas o idioma em si também pode ganhar importância aos olhos da criança, por estar ligado a essa importante imagem moderna.

Existem limites ao poder dos pais na questão da escolha dos programas de televisão. Desde cedo as crianças tendem a assistir a seus programas preferidos, e não àqueles escolhidos pelos pais. Assistir ao desenho preferido é mais importante do que o idioma em que este é falado, a despeito da intenção dos pais em escolher este ou aquele idioma. (outro dia meu filho estava assistindo ao “Mickey Mouse clubhouse” em alemão, e não parecia estar incomodado). Como os idiomas nunca são misturados na televisão, parece ser vantajoso para a criança assistir televisão tanto na língua minoritária quanto na majoritária. Ver um programa em francês e o próximo em inglês é válido desde que não haja confusão entre as duas línguas.

Entretanto, a importância da tv no desenvolvimento linguistico da criança não pode ser exagerado. Se por um lado ela pode ajudar a enriquecer o vocabulário, não podemos esquecer que a televisão será sempre um meio passivo, isto é, a criança recebe a linguagem mas nunca é encorajada a produzí-la. A televisão não produz uma quantidade significativa de oportunidades para que a criança fale, para que aprimore sua fluência na língua. Ao mesmo tempo, a tv pode ajudar, mesmo que minimamente, a capacidade de ler e escrever da criança, ao oferecer títulos, legendas, listas de times de futebol e legendas nos noticiários.

Na prática, os resultados

A hora de dormir em casa sempre compreende a leitura de um (ou mais) livro(s). Esta semana, em vez de “ler” o livro, o João resolveu ler os números das páginas. Ao terminar, em português, ele quis recomeçar, “agora em inglês”. Para a surpresa do pai, ele leu os números até dez em inglês! Além dos números, ele sabe o nome das cores, de algumas formas (square, heart, triangle) e de vários animais em inglês. Já vi (e ouvi) inúmeras vezes meu filho repetindo esses nomes ao assistir algum programa educativo na tv, ou ao resolver algum joguinho no telefone.

Apesar de frequentar a escolinha (em francês) quatro vezes por semana, acredito que o vocabulário em inglês hoje seja mais extenso que em francês. As professoras dizem que ele entende absolutamente tudo o que elas dizem, e que começa a repetir algumas palavras e frases (além das já internalizadas como “bonjour”, “au revoir”, “merci” e “bisous”), mas nunca houve uma demonstração por parte dele de querer falar francês em casa. Isso não me incomoda, pois tenho a consciência de que o francês é o idioma majoritário e mais cedo ou mais tarde ele será aprendido.

O importante é manter o nosso idioma materno em casa, para que este não seja suplantado quando chegar a idade escolar oficial, a alfabetização em outro idioma sempre coloca em risco o idioma minoritário. E quanto a esse bônus do terceiro idioma, espero que a televisão e os aplicativos do iPhone continuem sendo tão eficazes quanto têm sido até hoje, para que mais tarde o João possa se beneficiar com toda essa diversidade cultural.

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Publicado em 16/10/2011, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Ola, Maria Lucia.
    Eu adoro essa parte do blog. E o seu post de hoje foi muito inspirador e tranquilizador.
    Eu me identifiquei muito com a sua realidade, com a TV representando a maior fonte de ingles em casa, ja nos tambem saimos da Inglaterra so que para morar no Brasil.
    Voce nao acha necessario falar um pouco em ingles com o seu filho para que ele possa ter oportunidades para praticar e construir frases?
    Um abraco e continue escrevendo para nos sempre!
    Luciana

  2. Pena que a autora de tão brilhante artigo esteva perdida no anacronismo da vida. Como é bom vê-la de volta em ponderações como estas. Tornou meu dia bem mais feliz!

  3. Gstei da pagina gostaria de receber atualizacoes .

    obrigado

    Esterlina oliver

  4. Esterlina,

    Fico contente em saber do seu interesse nas atividades da ABRIR.

    Por favor, cadastre-se gratuitamente no nosso portal (www.abrir.org.uk) para receber as atualizacoes no seu endereco de email.

    Abracos,

    Ana

  5. Ana Paula Passos Jakubow

    Olá, papais e mamães!

    Procuro famílias com crianças bilíngues (até os 4 anos de idade), sendo um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro, falante nativo de inglês.

    Se estiverem interessados em participar ou se precisarem de mais detalhes sobre a pesquisa, por favor, entrem em contato pelo e-mail anapassos88@hotmail.com.

    Obrigada!

    Ana Paula Passos Jakubów.

    Mestranda em Lingutica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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