Bilinguismo em famílias com mais de um filho

Nossa família está prestes a crescer, e algumas dúvidas surgiram em relação à educação do segundo filho. Será mais fácil criar um primeiro filho bilíngue ou o segundo se beneficia do bilinguismo do primeiro?

O que dizem as pesquisas

Muitas pesquisas sobre o assunto foram feitas desde os anos 50, mostrando que não se pode subestimar o padrão de relacionamento entre irmãos no desenvolvimento da criança.

Os filhos únicos, os primeiros filhos e os irmãos mais novos mostram personalidades e características de motivação diferentes, seu desempenho na escola e vida adulta também são diferentes.

Entretanto, como os irmãos modificam o ambiente linguístico de uma casa, especialmente em famílias bilíngues, é um terrítório ainda pouco explorado.

A chegada da segunda criança normalmente ocorre em um lar com um padrão linguístico já estabelecido, as decisões sobre interação linguística já foram tomadas e o idioma que o primeiro filho utiliza com cada um dos pais já está definido.

As probalidades são grandes que o segundo filho siga o mesmo padrão.

Novidade no ambiente familiar

O que aparece como novidade é a interação entre os irmãos. Se a mãe é quem fica com os filhos a maior parte do tempo, o seu idioma pode ser reproduzido na interação entre irmãos (especialmente quando as crianças são pequenas, e se ela fala um idioma majoritário).

Logo, se eu falo português com as crianças, as chances são grandes de que eles se comuniquem em português. No entanto, esse balanço pode ser alterado a cada chegada de um novo filho, pois não é certo que todas as crianças sejam expostas com a mesma intensidade a cada idioma.

O filho mais novo pode aprender bastante ouvindo e falando com outras crianças, e a criança mais velha funciona como um modelo para os irmãos mais novos.
Desenvolvimento diferenciado

Existe portanto uma chance de que os irmãos mais novos apresentem maior lentidão no desenvolvimento bilíngue, tanto porque são excluídos das conversas mais elaboradas entre mãe e filho mais velho, tanto porque copiam o irmão mais velho, que já trazem amigos para brincar em casa, utilizando nas brincadeiras provavelmente um idioma majoritário, além da velha mania dos irmãos mais velhos responderem pelos mais novos!

Os irmãos mais novos podem assim ser mais expostos ao idioma majoritário.

Vantagens para o segundo filho

Contudo, parece existir uma vantagem para os irmãos mais novos: a experiência dos pais na vida linguística da casa. Eles já tiveram sucesso na criação de um primeiro filho bilíngue, a ansiedade que ronda a criação do primeiro filho é menor, as decisões sobre que idioma usar em que circunstância foram tomadas.

Já existe um padrão de interação linguística na família e com os “estranhos”, e essa rotina de idiomas tornam o desenvolvimento do segundo filho menos estressante.

Colocando a teoria na prática

É claro que a teoria nem sempre corresponde à prática, e só vamos descobrir se é mais fácil ou mais difícil criar o segundo filho em mais de um idioma daqui a um ou dois anos.

Aproveito para pedir aos pais com mais de um filho que compartilhem suas experiências conosco aqui no blog, a sua receita de sucesso pode ajudar outros pais nessa difícil tarefa de educar os filhos – em vários idiomas!

  • As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro A Parents and teachers Guide to Bilinguism, de Colin Baker.
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Publicado em 09/11/2011, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. eu moro em londres, inglaterra. tenho 2 filhos. comunico-me com meu marido em ingles desde que nos conhecemos. apesar de sempre falar com meus filhos em portugues, eles respondem em ingles e falam entre si em ingles. ja vao a escola e ha pouquissimos colegas brasileiros. onde eu falhei? aqui em casa nao tenho acesso a canais brasileiros mas eles tem alguns livrinhos em portugues. sou muito triste em relacao a isso. minha lingua me da orgulho e gostaria muito que meus filhos falassem um pouco de portugues, eles nem tentam. qual e o problema? como posso remediar tal situacao? muito grata

  2. Tenho uma filha de 9anos que nao fala muito portugues. Morou no Brasil por um ano qdo tinha 3 anos e era fluente, mas agora nao fala. Meu filho tem 3meses e estu usando ele omo um motivo para a milnha filha falar mais portugues, mas ainda estou achando muito dificl. Nao tenho acesso a televisao em portugues e mesmo entre amigos brasileiros as criancas se comunicam em ingles. Tb gostaria que minhas crianas fossem bilingues, mas nao sei como trazer o portugues de volta a rotina diaria. Alguma sugestao?

  3. Cecilia e Tanira,

    Fico contente em saber que estao usando o blog como um canal de troca de ideias. Tenho certeza que outras familias poderao compartilhar suas experiencias com voces.

    Entendo perfeitamente a tristeza que expressam por seus filhos nao falarem portugues. Porem, ressalto que nao devem se sentir culpadas nem fracassadas. Ha muitos fatores envolvidos no desenvolvimento bilingue. Por isso, sugiro que foquem no que podem fazer de agora em diante.

    Sugiro tambem que vejam as ideias publicadas nas edicoes anteriores desse blog. Claro que ter televisao com programas em portugues ajuda, mas o fato de voces sempre falarem com as criancas em portugues e manterem uma rede de amigos brasileiros tambem eh positivo.

    As situacoes descritas por voces, onde as criancas respondem em ingles e falam entre elas em ingles, sao normais e podem ocorrer mesmo no caso de criancas que dominam bem os dois idiomas a que sao expostas.

    Entao, a sugestao basica eh tentar expo-las o maximo possivel a situacoes onde o portugues seja falado por adultos e criancas. Aqui seguem algumas ideias:
    – ter livros em portugues apenas ou bilingues em portugues/ingles. Vejam a colecao http://www.thebookoftheanimals.com, que tem livros com portugues brasileiro para criancas pequenas. Visitem tambem a pagina http://www.mantralingua.com e http://www.little-linguist.co.uk Elas usam portugues europeu, mas tem livros para criancas mais velhas.
    – ir a eventos culturais para criancas. Sei que nao sao muitos, por isso, nao deixem de ir quando houver algum!
    – frequentar aulinhas com outras criancas. A ABRIR tem uma lista destas escolinhas no portal http://www.abrir.org.uk
    – ter videos em portugues para compensar a falta de acesso a televisao brasileira.

    A ABRIR tambem oferece oficinas para pais e apoio aos pais que queiram formar um grupo para as criancas. Esse apoio eh gratuito. Entrem em contato se tiverem interesse.
    info@abrir.org.uk

    Abracos,

    Ana

  4. Maria Lucia Mancinelli

    Cecília, Tanira
    Seus filhos são bilíngues, o que chamamos de bilíngues passivos. Eles não falam português, mas obviamente entendem tudo que vocês dizem em português. Esse já é um primeiro passo, agora falta motivação pra que ele tentem falar.
    Vocês já procuraram grupos de mães brasileiras na região onde moram? A ABRIR tem uma relação grande de grupos organizados, e ver outras crianças que falam e brincam em português é sempre um grande incentivo.
    Como a família brasileira se comunica com as crianças? Os avós, tios, primos? Hoje em dia a Internet é um ótimo meio pra incentivar as crianças a falar outro idioma, tentem colocar as crianças em contato com a família via Skype.
    A Internet também dá acesso a inúmeros desenhos e filmes em português, procurem no Youtube, escrevam o filme ou desenho que procuram com “dublado em português” depois do título. Se vocês assistirem junto com o filho, podem tentar falar sobre o filme depois.
    Leiam os posts antigos sobre bilinguismo, e não desistam. Mesmo que os maridos precisem aprender a falar um pouco de português, vale a pena!

  5. Sou brasileira e tenho tres filhos. Moro na Inglaterra a seis anos. Meu ultimo filho nasceu aqui. Percebo realmenteque o meu primeiro filho tem uma desenvoltura maior no portugues do que meu ultimo e que se eu relaxar eles preferem falar em ingles, mas eu e meu esposo somos firmes e nao desistimos da lingua, mesmo que eles nos respondam em ingles. O mais importante eh que eles entendam, desta forma a estrutura linguistica ja vai estar formada no cerebro e em qualquer momento que precisarem vai estar la. De dois em dois anos vou ao Brasil e percebo que nas primeiras semanas eles ficam meio perdidos, mas depois da terceira semana, estao totalmente fluentes. Vale a pena persistir!!!!

  6. Malu,

    Excelente a lembranca sobre como o skype e a internet podem reforcar o uso do portugues pelas criancas.

    Lembro que eh possivel achar links no portal da ABRIR para desenhos, musicas, etc em portugues.

    Abracos,

    Ana

  7. Damares,

    Obrigada pelo incentivo!

    Abracos,

    Ana

  8. Tenho 2 filhas pequenas e gostaria de passar a minha experiência, que avalio como sendo positiva até agora.

    Quando engravidei da minha primeira filha, eu e meu marido combinamos que manteríamos nossas línguas maternas em casa. Eu sou brasileira e ele é francês. Falamos em inglês entre nós dois.

    Nossas filhas nasceram em Londres e conseguimos manter as três línguas dentro de casa. Confesso que no começo, sentíamos inseguros com a filha mais velha. Achávamos que ela iria demorar para começar a falar, como já havíamos lido que é o que acontece com muitas crianças expostas a dois ou mais línguas. No entanto, ela começou a falar assim que completou 1 ano. Falava palavras soltas nos 3 idiomas. A primeira frase foi uma mistura de francês e inglês. E assim foi, sempre misturando as línguas numa mesma frase. Nunca dissemos que estava errado. Simplesmente repetíamos a frase toda que ela queria falar, em cada um dos idiomas. Sem estress. Sempre brincando, incentivando, fazendo de maneira engraçada. Muitas vezes, pensamos estar sobrecarregando a pequena com tantos idiomas, mas havíamos o apoio da health visitor e outros profissionais que fui encontrando em Londres e online. Todos sempre nos falavam para falarmos nossas línguas maternas com ela, de maneira natural, sem forçar. Aos parentes, pedíamos que nos enviassem CDs e DVDs do Brasil e França, pegávamos livros na biblioteca em nosso próprio idioma, pegávamos desenhos e musiquinhas pelo youtube (Galinha Pintadinha é um grande hit aqui em casa!).

    Quando a segunda filha nasceu, o esquema já estava montado em casa e, como sabíamos que estava dando certo, continuamos com a mesma fórmula. A segunda demorou mais para falar (cada filho tem seu ritmo e, fora isso, a mais velha é tagarela e quase não dá brecha para a menor se expressar!), com quase 2 anos. Mas, logo que começou, já passou a juntar duas palavrinhas, três e logo, estava montando frases inteiras.

    Hoje, elas têm 3 e 5 anos. A mais velha fala de tudo, nos três idiomas. Sente-se confortável falando em qualquer um deles, na frente de qualquer pessoa. Não mistura idiomas. Acha engraçado quando alguém, que ela sabe que é brasileiro, por exemplo, tenta falar em francês com ela. A mais nova, ainda mistura um pouco os idiomas numa mesma frase, mas sabe diferenciar o que é português, inglês ou francês. Entre as duas, elas falam e brincam ora em português, inglês ou francês, dependendo de quem ensinou a brincadeira para elas (se eu, o marido ou uma brincadeira que nós dois inventamos juntos, brincando juntos com elas).

    Eu acredito que a perseverança dos pais é a chave para que o bilinguismo aconteça dentro de casa. Devemos conversar muito, cantar as musiquinhas que aprendemos na nossa infância, ler livrinhos no nosso idioma, mostrar desenhos na nossa língua. Incentivar e estimular, sem forçar. Fazer de maneira que elas aprendam brincando. A tranquilidade dos pais passa para os filhos e eles absorvem tudo de maneira natural.

    Fora isso, acho também muito importante, mostrar a nossa cultura todas as vezes que temos oportunidade. Por exemplo, cozinhar a nossa comida e explicar que é um prato típico do nosso país, que é a comida que a mamãe mais gosta, ou o prato que a vovó fazia quando a mamãe era criança… Quando tiver exposição sobre o Brasil, levar. Eventos com a comunidade brasileira, levar.

    Eu ainda estou no começo da jornada e ainda tenho muito o que ver e aprender. Mas, tanto eu quanto o meu marido temos muito claro em nossas cabeças que manter as 3 línguas vivas dentro delas é o caminho mais certo que podemos fazê-las percorrer. Não só porque as línguas abrem portas neste mundo tão global, mas também porque com os nossos idiomas elas poderão falar com as nossas famílias e sentir que fazem parte – ainda que um pouco – dos nossos países. Sem contar que, falando outro idiomas, uma outra parte do cérebro está sendo ativada e elas acabam por serem muito mais espertas do que se falassem apenas um idioma.

    Um abraço bem forte a todos os pais neste mesmo barco.

    Lu

  9. Ana Paula Passos Jakubow

    Olá, papais e mamães!

    Procuro famílias com crianças bilíngues (até os 4 anos de idade), sendo um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro, falante nativo de inglês.

    Se estiverem interessados em participar ou se precisarem de mais detalhes sobre a pesquisa, por favor, entrem em contato pelo e-mail anapassos88@hotmail.com.

    Obrigada!

    Ana Paula Passos Jakubów.

    Mestranda em Lingutica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  10. Os meus 2 filhos transitam entre 3 línguas. Eu “pensó” sobr isso, em voz alta, no meu blog
    http://las3lenguasdemis2hijos-sonia.blogspot.com.es

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