Língua e Emoções

A língua é intimamente ligada às emoções e nem sempre a língua materna é necessariamente a língua afetiva.

Aprendendo Inglês

Eu cheguei na Inglaterra com 11 anos e só com o básico das aulinhas de inglês. Mas, como toda criança, dentro de um ano aprendi o necessário e poderia dizer que estava “assimilada”, acompanhava bem a escola, fiz amizades. Aos 15, tirei B no meu “O” Level (o GCSE da época) de língua inglesa. Mas o processo de aprendizagem de uma língua nunca termina e me lembro de continuar a aprender vocabulário. Certa ocasião, já depois de formada, eu estava trabalhando num pub e percebi que não conhecia bem a palavra “jug”, que normalmente quer dizer “jarra”, mas que também pode significar “caneca” (de cerveja) e passei pela cômica situação de encher uma jarrinha de água, que era utilizada para aguar o uísque, com cerveja!

Desde que minha mãe voltou ao Brasil em 1983, eu e meu irmão passamos anos sem conhecer um só brasileiro, nosso contato com o português se limitava às férias cada ano e meio, telefonemas à família e alguns livros que meu pai nos mandava. Com meu irmão, o contexto social naturalmente guiava a utilização da língua, o português, portanto, só era usado quando falávamos da família. Por questões emocionais particulares, fui me distanciando cada vez mais física e emocionalmente não só da família, mas do país, e consequentemente, da língua materna, e o inglês ficou sendo não só a língua do conhecimento e das amizades, mas também da felicidade e das relações afetivas. Em 1989, tive meu primeiro reencontro com brasileiros. Nessa época quase não praticava o português e quando falava, meu sotaque era forte – até hoje não conheço gíria e não consigo falar palavrões, chegando a ficar vermelha. Porém, desse momento em diante comecei uma longa viagem de reconciliação cultural.

Fazendo as Pazes com a Língua Portuguesa

Conheci meu marido inglês, que (por acaso?) cursava língua e literatura lusófona na universidade, e eu “aprendi” a gostar de minha língua e cultura através ele. Quando tive meu primeiro filho, já estava “intelectualmente” reconciliada e queria que ele aprendesse o português, mas emocionalmente, ainda não era capaz de falar português em casa. Essa tarefa me parecia tão importante que me juntei com outras mães para formar uma escolinha de português. A reconciliação emocional levou muito mais tempo e só se consolidou quando fomos morar no Brasil, experiência essa impulsionada por meu marido, que passou quase dez anos me convencendo. Com sete anos passados no Brasil, hoje consigo ser carinhosa com minha filha em português. Poderia dizer que o processo se inverteu, voltei do Brasil falando inglês com sotaque, (mas há brasileiros que continuam achando que sou estrangeira), e talvez, como parte deste esforço, é o inglês que agora recebe certo desdém meu. Como linguista, não deveria ser assim, mas desde que voltei à Inglaterra não tenho “vontade” de ler em inglês, optando pelo português ou espanhol, línguas cujo conteúdo literário, hoje, me parece mais fascinante.

Facetas do Uso de Línguas

O processo linguístico é sempre fluido, tanto pelo fato que a própria língua vai mudando – muito mais rapidamente do que pensamos – como também porque a própria relação que cada pessoa tem com a linguagem vai mudando. Para mim, este processo é intimamente ligado tanto ao emocional, como também ao cultural, e ambas facetas afetam não somente o desejo de praticar uma língua, mas como a praticamos.

Julia Spatuzzi Felmanas

Tradutora e Intérprete Português e Espanhol

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Publicado em 09/01/2012, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Prezados Leitores,

    Julia Felmanas faz uma contribuição especial este mës e compartilha conosco sua experiência como uma criança imigrante na Inglaterra nos anos 80.

    Continuaremos com as contribuições de Maria Lúcia sobre sua experiência em criar seu filho fora do Brasil no século XXI em breve.

    Esperamos que estas perspectivas diferentes sejam úteis!

    Abraços,

    Ana

  2. Julia, muito interessante o seu relato sobre as emocoes e a lingua, nunca havia pensado nisso. Minha filha tem 4 anos e nasceu aqui na Inglaterra, entende o portugues, mas nao o fala com fluencia. Sei que isso acontecera, mas voce me fez abrir o olho quanto as suas emocoes, talvez se eu a mostrar um portugues mais expressivo em termos de emocao, ela se motivara’ mais em aprende-lo. Muito obrigada.

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