Falando português em Londres

Após compartilhar as emoções que sentiu ao crescer em Londres nos anos 80, Julia contribui para o Blog-tim Abrir com mais uma matéria. Desta vez, ela fala como conseguiu desenvolver seu português em uma época em que os meios de comunicação eram mais limitados.

Em Londres não é preciso esperar muito para ouvir uma pessoa perto de nós falando português. As lojinhas brasileiras estão por toda parte, sem mencionar os canais de TV em português e as mil-e-uma opções de comunicação com o Brasil através da internet. Hoje em dia, podemos viver num mundo virtual brasileiro sem sair da Inglaterra. Porém, quando cheguei aqui com 11 anos, as coisas eram bem diferentes.

Londres nos anos 80

Londres sempre foi uma das cidades mais cosmopolitas do mundo e os brasileiros sempre moraram aqui, em número muito menor, é claro. Havia os que trabalhavam nos órgãos oficiais, alguns jornalistas e um ou outro estudante de pós-graduação. Para conseguir produtos genuinamente brasileiros, só na mala da mãe e jornais velhos, de dois dias ou mais, que podiam ser encontrados na agência da Varig que ficava numa travessa da Regent Street.

Manter o idioma materno, portanto, era algo laborioso. Meu português sobreviveu, sobretudo por causa dos livros que meu pai trazia quando me visitava ou quando enviava pelo correio, do Brasil. Ele mandava livros da série Para Gostar de Ler e clássicos da literatura brasileira como Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado e outros.

Tive sorte, já que, com onze anos e alfabetizada em português, pude desfrutar dessa leitura. Na época também, já se podia fazer o equivalente do GCSE em língua portuguesa, apesar de não ter ninguém para me ensinar essa língua formalmente.

Bilíngue no século XXI

Hoje em dia, as possibilidades para aprender e praticar a língua são inúmeras, desde o simples ato de socialização com outros luso-falantes até a enorme quantidade de recursos mais formais, como material didático e a grande variedade de literatura infanto-juvenil, que não existia na época.

Entretanto, esta grande oportunidade pode também ser um desafio. O fato de o português ser tão acessível faz com que algumas pessoas se preocupem menos com o seu aprendizado e muitos acreditam que simplesmente o ‘falar’ é suficiente, contentando-se com o contato fácil com o Brasil através do Skype ou Facebook, onde
geralmente se escreve pouco ou se usa uma linguagem de internet na comunicação.

Porém, para que nossos filhos possam realmente usufruir desta grande oportunidade de se tornarem bilíngues, é necessário aprender a língua em sua totalidade, tanto por questões profissionais, como por prazer pessoal. Parte de nossa cultura só é acessível através da leitura e da escrita. Não é preciso discursar aqui sobre a riqueza de nossa literatura, mas queria lembrar que um idioma é também uma porta de entrada para a cultura de um povo.

Aqueles que são bilingues têm o potencial para compreender com uma profundidade que poucos têm acesso, não só à essência de um povo, mas de dois. Esta oportunidade, para ser tornar realidade, precisa ser cultivada e isso só é possível através do aprendizado da língua em todas as suas modalidades

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Publicado em 17/03/2012, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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