A volta às aulas

por Malu Mancinelli

A volta às aulas

As férias acabaram. João tem três anos completos. É o primeiro dia de “aula” na creche que ele já frequenta há um ano, cerca de metade dos alunos são novos, já que muitos terminaram este ciclo e começaram a escola oficial. As professoras falam francês, enquanto que os alunos…

Uma turma e várias línguas

João fala português, do Brasil, mas a Lara fala a versão portuguesa. Emanuel e sua irmãzinha falam inglês, entre si e com as outras crianças. A Chiara fala italiano, mas o Theo responde sempre em espanhol. Bridget fala inglês quase sempre, apesar do pai nigeriano e da mãe filipina. Sim, muitas crianças falam o francês, exclusivamente ou também, mas na creche não é o idioma que determina as afinidades, ou cria segmentação. Isso acontece mais tarde.

O  medo da “não-compreensão”

Assim como algumas crianças são discriminadas pela cor da pele, roupas, religião, crenças ou identidade étnica, também é possível que uma criança seja discriminada por falar outro idioma. Apesar de não servir de consolo à criança, essa discriminação revela uma deficiência de quem discrimina, e não de quem é discriminado. Esse tipo de problema, que acontece com certa frequência, pode estar ligado ao medo  que o diferente provoca. E quando a diferença de idioma vem acompanhada por um credo e uma cultura diferentes, então aparece o medo do desconhecido, o medo da “não-compreensão” por parte de quem faz os comentários negativos.

O papel dos pais

Os pais também devem ensinar aos filhos os porquês da discriminação. Mesmo que isso não mude a situação, ao menos possibilita a compreensão. Se a criança entende os motivos irracionais e ilógicos que estão por trás da discriminação, ela pode criar um pequeno escudo e alguma defesa psicológica que tornem a ridicularização mais tolerável. No entanto, não existe substituto para o verdadeiro remédio: a educação e mudança de comportamento dos perpetradores.

O papel dos professores

Importante também é o papel dos professores e da educação no apoio ao multiculturalismo, à diversidade linguistica e ao aumento da compreensão entre grupos distintos. Por exemplo, colocar um monolíngue no papel de um bilingue em uma situação fictícia pode permitir que o primeiro entenda a situação do bilingue. Quando sensibilidade e empatia são ensinados e aprendidos na sala de aula, a divisão entre línguas, culturas e etnias são atenuadas. Cada vez mais a educação vem se tornando essencial na luta contra o racismo e o preconceito, ao sensibilizar para os diferentes idiomas e encorajar crianças e adolescentes a ver a beleza na diversidade linguística.

Quando o diferente é comum

Aqui na Suíça, ser bi ou trilingue é tão comum que as crianças não sentem a distância que a diferença de idiomas pode causar; mesmo não compreendendo o colega, a brincadeira acontece. Cito aqui nossa vizinha Lucille, de 5 anos: “Eu gosto de brincar com o João, mas eu não entendo nada do que ele fala! Mamãe, ele fala português!!!!”

* As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro A Parent`s and teacher`s Guide to Bilinguism, de Colin Baker.

Malu Mancinelli

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Publicado em 29/09/2012, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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