Trilinguismo: uma boa surpresa

por Malu Mancinelli

Será que todos se lembram da trajetória linguística de suas vidas?

malu+kids

Ao menos da vida de seus filhos? Pois bem, eu que sou linguista primeiro e mãe muito tempo depois, anoto cada bobagem e cada progresso linguístico do João – hoje com 3 anos e 8 meses, e um repertório interminável de perguntas e histórias que sempre terminam com uma nave espacial que explode alguma coisa.

O João nasceu em Londres, e mudou-se para uma cidade francófona na Suíça aos 8 meses de idade. Trouxemos na bagagem dele o ouvido acostumado ao inglês e muitos livros e brinquedos que “falavam” inglês. Para completar a bagunça, decidimos que a televisão em casa “falaria” inglês. Tudo funcionou bem até que o rapaz descobriu que existia a opção de assistir a alguns DVDs em português, e se existe a opção, ele sempre prefere português.

Essa tentativa de preservar o inglês na vida do nosso filho era realmente uma experiência, e não tínhamos idéia se funcionaria ou não. Pois bem, está funcionando!

Proficiência e oportunidade

Há alguns meses, mudou-se para o apartamento em frente um casal que fala inglês. Casal de avós longe dos filhos e netos. Adotamo-nos. Nas primeiras conversas, o João mostrou-se muito interessado em saber que língua estávamos falando, perguntou isso muitas vezes, até que se convenceu de que o idioma era realmente inglês. Hoje ele diz que “inglês é a língua que a Asieh (a vizinha) fala”.

Eu sabia que meu filho tinha um certo vocabulário em inglês: cores, formas, animais, números até dez, meios de transporte, mas não imaginava que ele pudesse se comunicar no idioma. Há algumas semanas, no final de uma conversa amigável no corredor, o João pediu pra ir brincar um pouco na casa da vizinha, que muito feliz logo o chamou pra entrar. A grande surpresa veio na “devolução” do João, quando ela me contou que ele queria ir na varanda para ver o cachorro da vizinha, e que havia passado todo o tempo perguntando “what is this?”

Depois desse dia, o inglês passou a ser uma língua ativa na vida do João, que sempre consegue trocar algumas palavras com a vizinha, e até frases simples ele consegue construir. “Look the car”, “I want my mommy”, “come my house”, “play with me” e, no dia da festinha de aniversário do irmão, ele tocou a campainha e disse “come and see the cake!”. Eu fiquei boquiaberta! Ele apenas precisava de um motivo para falar um idioma que vinha se construindo de maneira passiva em seu cérebro!

Para cada situação, um idioma adequado

Assim como já acontecia com o francês, o João se recusa a falar inglês conosco. Francês é a língua que se fala na escolinha, e inglês é a língua que se fala com os vizinhos. Em casa, todas as conversas são em português.

Em português, o João está na fase dos porquês, tentando entender o funcionamento do mundo. O vocabulário todo já foi dominado, e ele esta ensaiando construções linguísticas audaciosas, até com verbos no modo subjuntivo. Em francês e em inglês, notamos que ele ainda está na fase “o que é isso?”, nomeando o mundo e suas partes, e com o uso de construções simples. A comunicação, entretanto, é garantida.

Colhendo os frutos da persistência

Às vezes, dá preguiça manter a organização linguística que determinamos num devaneio otimista e descansado. A pressão da rotina, a falta de tempo, parece que sobreviver aos dias que seguem já é difícil demais sem ter que se preocupar com “quem fala qual idioma”. Mas precisamos tomar alguns cuidados diários como cada pai escolher um idioma para se comunicar com o filho, e se manter fiel ao uso daquele idioma apenas; ou escolher um momento do dia para ler um livro ou fazer qualquer outra atividade em um idioma diferente.

Escolher uma estratégia (ver edições anteriores do Blog-tim) e se manter fiel à mesma traz resultados. Estes podem demorar a aparecer, mas é apenas com a persistência da família que uma criança se desenvolve linguisticamente de modo adequado. Não podemos desistir apenas porque a criança se recusa a falar determinado idioma, mesmo que a criança não fale naquele dado momento, as informações são guardadas no cérebro e, num momento de necessidade – ou de oportunidade – o idioma florescerá para garantir a socialização da criança.

 

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Publicado em 24/04/2013, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Olá Malu! Descobrí seu blog através de uma amiga e Gostei muito do seu ” depoimento”. Moro em Lausanne e meu filho de 5 anos fala Português ( comigo), Suíço-alemão com o pai, aprendeu o Francês na crèche e hoje estuda numa escola bilíngue pois papai e mamãe se comunicam em Inglês. Ufa, nem sempre é fácil para nossa pequena família manter os “bons hábitos” linguísticos mas ao ver como o nosso menino absorve e lida muito bem com todos esses idiomas, seguimos em frente , ou seja, persistimos mesmo quando cansados. Em time que está ganhando não se mexe, certo? 😉 Um abraço!

  2. Muito bom ler estes depoimentos. Estou buscado informações, mas não tem sido tão fácil encontrar livros bacanas sobre o assunto.
    Eu sou brasileira, meu marido holandês, moramos no Brasil e nos comunicamos em inglês (apesar de hoje ele já falar português).
    Teremos uma menininha em alguns meses e a ideia é ele manter o holandês e eu o inglês, já que o português virá naturalmente.
    Tenho muitas dúvidas, no entanto.
    Vi que para vocês o desafio está tendo bons resultados certo?
    Têm boas dicas sobre onde mais posso me informa?
    Um abraço.

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