Famílias bilíngues

por Malu Mancinelli

Ultimamente tenho prestado muita atenção nas famílias que conheço ou cujos filhos frequentam a mesma escolinha do meu filho. Não uma atenção qualquer, tenho prestado uma atenção linguística, talvez o germe de uma vontade incontrolável de voltar a estudar, de voltar à pesquisa (afinal, o pequeno já tem um ano, daqui a pouco ambos estarão escolarizados e eu volto a ter tempo para mim. Como este, os filhos são um parêntese em minha vida acadêmica).

Eu já comentei que na Suíça é mais fácil encontrar bi(ou tri)lingues do que monolíngues. Mas nem tudo são flores nesta babilônia linguística.

A Parent's and Teachers Guide to Bilingualism

Uma vizinha, com um filho de 4 anos, me contava que o filho frequenta um curso de inglês desde os 3 anos, porque nem ela nem o marido (ambos suíços) falam outro idioma e ela acha muito importante que o filho fale inglês. Eles não acham que o inglês oferecido na grade curricular oficial seja o suficiente para que o filho seja bilíngue (lembrando que, na grade oficial, também é previsto o ensino de alemão e italiano).

Uma amiga, brasileira, morando aqui há dois anos com uma filha hoje com 4 anos, também matriculou a filha num curso de inglês porque ressente o fato de não ter aprendido inglês na infância/adolescência. A menina que chegou aqui antes de ter dois anos completos já fala português e francês com completa desenvoltura, mas os pais sabem da importância do inglês no mundo atual.

Uma mãe, na saída da escolinha, dizendo ao filho – em português – que o João falava português. A mãe portuguesa, casada com um suíço, só fala português com os filhos de 7 e 3,5. Os meninos entendem tudo, mas respondem sempre em francês. O menino de 7 agora tenta falar algumas palavras em português, mas tem dificuldade.

Uma moça no ponto do ônibus, com um filho de 7 anos, cabo-verdianos. O menino saía do curso de português (na quarta-feira à tarde, único período de folga na escola) porque a mãe acha importante que o menino saiba falar, ler e escrever outro idioma. Por enquanto ele só entende português, a mãe optou pelo português por ser seu idioma de origem.

O papel dos pais

O interesse dos pais é fundamental para que uma criança seja bilíngue, mesmo que estes não falem um segundo idioma. Algumas crianças aprendem um segundo idioma na creche/pré-escola, frequentando play groups ou com uma baby-sitter ou au pair; e se essa experiência inicial é consolidada na escola formal, o resultado pode ser um bilíngue altamente competente.

As crianças também podem aprender outro idioma de maneira simples e sem esforço, simplesmente brincando com os colegas na rua, após as aulas, nos finais de semana ou durante as férias. Outras crianças frequentam escolas patrocinadas por organizações religiosas ou grupos de minoria étnica aos sábados ou domingos. No entanto, essa “competência conversacional” pode não ser suficiente para que a criança se comunique em todos os níveis linguísticos, como por exemplo, acompanhar uma aula no outro idioma.

A conclusão perigosa seria que o primeiro idioma é aprendido em casa e o segundo fora de casa. Esta é uma afirmação falsa e perigosa porque as atitudes, o encorajamento e o interesse dos pais são vitais para o progresso do segundo idioma na criança. Perguntar como vai o aprendizado mostra que os pais estão interessados, parabenizar a criança quando a ouvem falar outro idioma pode fazer muito bem ao ego dela, visitar a creche e mostrar interesse no desenvolvimento linguístico da criança pode encorajar o professor. Essas atitudes também mostram à criança o interesse e a atenção dos pais. (Mas cuidado para não ultrapassar os limites e passar de interesse a cobrança, de entusiasmo a ansiedade!) Se os pais acham que o segundo idioma é importante, que garante um maior status, a criança também aprenderá a valorizar o idioma, ao se identificar com os anseios paternos.

Os pais também podem colaborar com o segundo idioma proporcionando acesso a filmes, livros, música ou quadrinhos. O idioma aprendido “na rua” também vai se beneficiar com essa diversidade de material, que enriquece o nível relativamente simples da linguagem da brincadeira.

* As discussões contidas neste artigo são baseadas no livro, de Colin Baker.

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Publicado em 28/05/2013, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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