Mistura de idiomas: um processo natural

Malu e fiilhos

Malu e fiilhos

por Malu Mancinelli

Mãe, estou com fome! A que horas é o “goûter”?

Para quem não fala francês, a frase acima não faz sentido. Mas todos os falantes de português que moram por estas bandas ouvem isso diariamente. Goûter é o lanche da tarde, às vezes também o lanche da manhã, no intervalo da escola.

Muitas pessoas criticam os falantes bilíngues quando estes trocam de idioma no meio de uma conversa ou emprestam palavras de um idioma para usar no outro, acusando-os de preguiçosos, pois, certamente existe uma palavra também no outro idioma para expressar o mesmo conceito. Existem até nomes pejorativos para essas misturas, como franglais, ou spanglish, ou portunhol.

De fato, é muito comum e saudável que bilíngues troquem de idioma, e por diversas razões: Para expressar um conceito vivenciado cotidianamente no segundo idioma, como o goûter; alguns conceitos são expressados em uma palavra num idioma, enquanto que para traduzi-lo são necessárias algumas frases; também pode-se usar o segundo idioma como uma estratégia de comunicação, para afirmar a identidade de um grupo, excluir alguém da conversa por alguns instantes, elevar o status de alguém, ou mostrar conhecimento específico.

O mais importante é saber que essa troca de idiomas é feita cuidadosamente (quase sempre subconsciente), e exige um alto grau de competência linguística nos dois idiomas (e nem sempre são o resultado de alguma deficiência de conhecimento em um ou outro idioma). Quando a conversa acontece entre bilíngues que dominam os mesmos idiomas, essa troca acontece de forma natural.

Lembremos também de que que todo idioma tem algumas palavras “emprestadas” de outro. Em francês, mesmo escrito, as coisas podem ser “cool”, “top”, a amiga mudou de “look”, você fez uma bela viagem no “weekend”. Em português temos centenas de palavras emprestadas, sobretudo do inglês na linguagem informática: email, mouse, hardware, software, printar, dar um forward. São tantas que nem percebemos que a palavra não pertenceu desde sempre ao português (e ninguém faz alarde porque as usamos).

Ou seja, se o seu filho usa algumas palavras do idioma dominante enquanto fala com você na sua língua materna, não é preciso ser radical. É provável que você também faça isso sem perceber, e essa troca é natural, a linguagem é viva e está em constante movimento, e as pessoas adaptam sua linguagem ao local e ao momento vivido.

Fale sempre em português com seu filho, e sempre que possível crie oportunidades para que ele também possa se comunicar em português. Mas se a criança usar uma palavra em inglês, ou francês, ou alemão (o idioma que ela usa na creche, na escola, no parquinho com os amigos), você até pode dizer o sinônimo em português, mas lembre-se de que esse não é um sinal de que a criança recusa o seu idioma materno ou não está falando português direito. Ele reflete apenas uma escolha de um bilíngue!!!

Discussão baseada no livro Bilingual: life and reality, de François Grosjean.

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Publicado em 18/03/2015, em Bilinguismo. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Muito interessante o artigo. Gostei.

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